14 janeiro 2009

A minha avó


Eu só tenho uma avó... E ela é a pessoa que eu mais admiro.

A minha avó tem 85 anos, o que corresponde basicamente a meia idade. Isto porque o avô dela viveu até aos 103 anos e a sua mãe até aos 102... Ela, se continuar assim, ainda vai sair no jornal como a mulher mais velha do mundo.


A minha avó era a mulher mais bonita e cobiçada lá da aldeia quando era jovem. Com os seus olhos verdes e cabelos compridos provocava autênticas guerras nos bailes entre os candidatos. Mas acabou por casar com o meu avô, que pouco a ajudou ao longo dos 61 anos que formam casados. Assim, à semelhança da sua infância, toda a vida trabalhou no campo, para ela e para quem lhe pagasse qualquer coisa. Sempre teve grandes rebanhos de cabras e ovelhas, e pastava-as sozinha por esses montes. Nunca teve domingos nem dias feriados, pois tinha 3 filhos para alimentar. Passou fome, sede e andava descalça. Caminhava quilómetros de dia e de noite descalça e com pouco agasalho. Mas construiu uma casa e criou os filhos e ainda os netos.
Criou-me a mim porque a minha mãe nunca foi dada a esses afazeres (de ser mãe). Deu-me colo, comida, banho, levava-me à escola, levava-me para a horta, ensinava-me cantigas e orações, ensinava-me a fazer contas e a tratar dos animais. Foi com ela que fiz a "pré-primária". Foi com ela que cresci.
Hoje vive sozinha, na casa da minha tia emigrada nos States. Como tal, a casa é enorme e tem imensas coisas de valor. E a minha avó vive lá sozinha, isolada e apesar das várias tentativas para assaltar a casa ela permanece irredutível na sua vontade de permanecer sozinha "Eu não tenho medo nenhum. Pego na pistola e venho à janela dar uns tiros. Eles fogem logo!" - Mulher de força!
A minha avó tem um quintal enorme. Todo ele é cavado por ela, não aceitando qualquer ajuda de máquinas. É de lá que se alimenta e pouco gasta em comida. Tem os animais e a horta e todos os dias se levanta às 6 h da manhã para tratar de tudo. Só quando o sol desaparece é que ela recolhe a casa.
A minha avó conhece-me melhor do que ninguém. Basta olhar nos meus olhos para saber o que me está a passar pela cabeça, sabe o que eu quero, o que preciso, o que me magoa...


A minha avó faz tudo o que pode para me ajudar quando é necessário. Acarinha-me e é a única capaz de me dar uma abraço só porque sim.
A minha avó é a pessoa mais rija que eu conheço. Não tem medo de nada, não toma nenhum medicamento, não usa lareira nem aquecedores, não gosta de guloseimas nem de "modernices" e ainda goza com os mais novos quando se queixam do frio, das dores ou do cansaço: "Isso é falta de trabalho!".
A minha avó é moderna. Apesar de jamais usar uma manga curta, de vestir outra cor que não o luto, ou de abdicar do seu lenço a tapar os cabelos brancos é uma pessoa que aceita o evoluir das mentalidades, que aceita a diferença. Tomara muitos mais novos ter uma mentalidade como a dela.
É à volta da minha avó que a família se reúne. É a matriarca da família e a pessoa que com quem todos desabafam, acarinham e amam incondicionalmente.
A minha avó sabe perdoar, sabe dar segundas, terceiras oportunidades, sabe guardar segredos, sabe dar conselhos e acalmar ânimos. Sabe ser generosa, dar sem esperar nada em troca, ajudar sem ser necessário pedir-lhe.

É quando penso na minha avó que tenho mais medo da morte...da morte dela. Mas acredito que, como disse, ela viverá ainda muitos e muitos anos, sempre feliz e saudável, sempre a amparar toda a família, sempre a apoiar-me!

Obrigada avó!

8 comentários:

VM disse...

e deve estar orgulhosa da neta que tem...

=)

Pedro Barata disse...

Linda homenagem que fizeste à tua avó. Será por certo uma mulher orgulhosa de ti também!
Beijinhos

Luis disse...

parece que estas a descrever a minha avó, raio das velhas são rijas.

Laidita disse...

As pessoas mais velhas e que passaram por experiências que hoje nos parecem tão distantes, são feitas de uma fibra! Parece-me ser o caso da tua avó! Que te acompanhe por muitos anos!

Bjs!

Saltos Altos Vermelhos disse...

tenho pena que não tenho avó! Mas acho admirável essas senhoras! Um orgulho só!!!!!

Poupinhas disse...

Ai que me fizeste lembrar a minha, que era exactamente como a tua, mas já se foi à 16 anos.. Era a mãe da minha mãe, foi também um pouco minha "mãe" por causa das feiras (minha mãe era feirante).. era rija, de bom coração, mandava galhardetes, fazia-me papa de farinha, fazia-me broa caseira.. passeava comigo.. tenho saudades dela, mas tantas e dos meus avôs também..
Sabes, o problema de ser-mos mais novos é mesmo esse, haver a possibilidade de ver-mos "fugir" quem mais gostamos..às vezes é o contrário (destino)..
Já agora imprime-lhe o texto e lê-o para ver como ela reage.. acho que vai gosta :P
B*

Sofia disse...

Boa sugestão, Poupinhas!
De facto, é das poucas pessoas a quem eu digo, sem pudores, que a adoro e admiro.

E um dia sei que, tal como tu, também a vou perder (vai doer tanto!), mas as melhores recordações da minha infância são as que ela me proporcionou.

Maria Manuela disse...

Espero que a tenhas perto de ti por muitos e bons anos.


Eu perdi a minha faz 9 anos e ainda hoje lhe devo a mulher que sou.

:)

bj